As associações alemãs da indústria do vidro alertam para as consequências económicas da reforma das tarifas de utilização da rede elétrica, atualmente em discussão na Alemanha. A possibilidade de os benefícios tarifários passarem a depender da capacidade das empresas para ajustar o consumo de eletricidade poderá penalizar os fabricantes de vidro, cujos processos produtivos exigem um fornecimento contínuo de energia.

A Bundesverband Glasindustrie (BV Glas), associação federal da indústria do vidro, e a Bundes­arbeitgeberverband Glas und Solar (BAGV Glas + Solar), associação patronal dos setores do vidro e solar, dirigiram um apelo às autoridades políticas alemãs, defendendo que a reforma tenha em consideração as limitações técnicas dos processos industriais de elevada intensidade energética.

Em causa está a revisão do sistema alemão de tarifas de utilização da rede elétrica, conhecido como AgNes (Allgemeine Netzentgeltsystematik), conduzida pela Agência Federal das Redes da Alemanha (Bundesnetzagentur). A proposta pretende adaptar a estrutura tarifária às alterações do sistema energético, incentivando uma utilização mais flexível da eletricidade e uma distribuição dos custos da rede entre os consumidores. No entanto, as duas associações consideram que a aplicação de critérios de flexibilidade a setores com produção contínua pode criar desigualdades competitivas.

«A flexibilidade do consumo a curto prazo não pode tornar-se o único requisito para a concessão de benefícios tarifários. Para os processos industriais contínuos que não dispõem dessa capacidade de flexibilidade, devem ser consideradas formas alternativas de contribuição», sustentam as duas organizações.

Reforma deverá entrar em vigor em 2029

A Bundesnetzagentur abriu, em agosto de 2026, a consulta pública sobre a proposta de revisão das tarifas de utilização da rede elétrica. O novo enquadramento deverá substituir, a partir de 2029, as regras atualmente estabelecidas na legislação alemã.

A entidade reguladora justifica a reforma com a necessidade de adaptar o sistema elétrico ao crescimento das energias renováveis, reduzir os custos associados à gestão da rede e distribuir os encargos de forma mais equilibrada entre os diferentes utilizadores.

Klaus Müller, presidente da Bundesnetzagentur, defende que a reforma deverá proporcionar maior transparência e previsibilidade aos consumidores e investidores, ao mesmo tempo que incentiva uma utilização mais eficiente da capacidade disponível.

A eliminação imediata dos benefícios tarifários para os fabricantes de vidro não está decidida. A Bundesnetzagentur prevê, em termos gerais, prolongar até 31 de dezembro de 2031 as condições atualmente aplicáveis aos consumidores industriais com carga contínua já abrangidos pelo regime. Os detalhes do futuro sistema de tarifas industriais deverão ser definidos em 2027, depois da avaliação dos projetos-piloto em curso.

Produção de vidro não permite interrupções frequentes

A fusão do vidro exige temperaturas elevadas e operações contínuas. Os fornos industriais não podem ser ligados, desligados ou sujeitos a variações significativas de potência em períodos curtos sem consequências técnicas, económicas e de segurança.

Esta característica limita a capacidade das empresas para deslocarem o consumo de eletricidade para os períodos em que a energia é mais barata ou a rede apresenta menor procura.

Atualmente, determinadas empresas industriais alemãs beneficiam de tarifas de rede reduzidas em função das suas características de consumo, nomeadamente quando apresentam uma utilização intensiva e constante da eletricidade.

A revisão do sistema poderá alterar estes mecanismos, privilegiando comportamentos de consumo que contribuam para a flexibilidade da rede.

Para a BV Glas e a BAGV Glas + Solar, a eventual perda das condições tarifárias atualmente aplicáveis agravaria os custos de produção numa indústria já pressionada pelos preços da energia e pela concorrência internacional.

As associações defendem que a flexibilidade de consumo a curto prazo não deve constituir o único requisito para aceder a tarifas reduzidas. Em alternativa, propõem que sejam reconhecidas outras formas de contribuição para o funcionamento do sistema elétrico, adaptadas às características das indústrias de produção contínua.

Cinco unidades industriais encerradas desde o outono de 2025

O alerta surge num contexto de dificuldades económicas para a indústria vidreira alemã, marcado por custos energéticos elevados, pressão concorrencial e necessidades de investimento na modernização das instalações.

Desde o outono de 2025, cinco unidades industriais foram encerradas, de acordo com os dados apresentados pelas associações: a fábrica da Verallia, em Essen; a unidade da O-I, em Bernsdorf; as instalações da Ardagh, em Drebkau e Germersheim; e a fábrica da Saint-Gobain, em Herzogenrath.

As organizações referem estes encerramentos como exemplos da pressão que o setor enfrenta, embora não estabeleçam uma relação causal direta entre as decisões de encerramento e a reforma tarifária agora em discussão.

Ao mesmo tempo, os fabricantes de vidro enfrentam investimentos de milhares de milhões de euros para reduzir as emissões associadas à produção.

Entre as principais tecnologias de descarbonização encontram-se a eletrificação dos fornos e a adoção de sistemas híbridos de fusão, que combinam diferentes fontes de energia.

Um aumento das tarifas de utilização da rede poderá tornar estes investimentos economicamente menos atrativos, sobretudo nas unidades que pretendem substituir combustíveis fósseis por eletricidade.

As associações alertam ainda para o risco de deslocalização da produção para países com custos energéticos mais baixos, incluindo mercados sujeitos a exigências ambientais diferentes das europeias.