A transformação dos sistemas alimentares mundiais está a avançar a um ritmo insuficiente para cumprir a maioria das metas internacionais definidas para 2030.
A conclusão consta da edição de 2026 da análise da Food Systems Countdown Initiative (FSCI), publicada na revista científica Nature Food e abrangendo 197 países e 44 indicadores.
O estudo avalia o desempenho dos sistemas alimentares em cinco grandes áreas: alimentação, nutrição e saúde; ambiente, recursos naturais e produção; meios de subsistência, pobreza e equidade; governação; e resiliência.
A Food Systems Countdown Initiative é uma colaboração internacional de investigação coproduzida pela Johns Hopkins University, Cornell University, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e Global Alliance for Improved Nutrition.
Ao contrário das avaliações anteriores centradas sobretudo na evolução dos indicadores, a análise de 2026 procura determinar a distância entre o desempenho atual dos países e as metas ou referências definidas internacionalmente, bem como o ritmo de mudança necessário para as alcançar.
Emissões dos sistemas alimentares entre os maiores desvios
Entre 30 indicadores analisados com metas para 2030, apenas um — subscrições de telemóvel, utilizado como indicador indireto de conectividade e resiliência — deverá ser alcançado pela maioria dos países.
Em 22 indicadores, menos de um terço dos países está em trajetória para cumprir a respetiva meta ou referência global até 2030.
As emissões de gases com efeito de estufa associadas aos sistemas alimentares apresentam um dos maiores desvios. Em média, o desempenho mundial encontra-se 75% afastado do objetivo definido e, ao ritmo atual, nenhum país deverá atingir a meta até ao final da década.
A investigação identifica ainda indicadores que estão a evoluir no sentido contrário ao desejável, incluindo participação da sociedade civil, responsabilização dos governos, vendas de alimentos ultraprocessados, captação de água para agricultura, utilização de pesticidas e evolução das emissões dos sistemas alimentares.
“O que distingue este artigo do Countdown é que não se limita a dizer aos países se estão a avançar na direção certa — mostra-lhes quanto falta percorrer e compara esse progresso com uma referência que está efetivamente ao alcance”, afirmou Bianca Carducci, autora principal do estudo.
Europa mantém 19 indicadores fora de alcance
As diferenças regionais são igualmente significativas. Em África, seriam necessárias melhorias anuais de pelo menos 15% a 20% em 23 indicadores para alcançar as metas de 2030. Na Ásia, a insegurança alimentar teria de diminuir mais de 63% por ano.
Também as regiões de rendimento elevado permanecem distantes dos objetivos. Na Europa, 19 indicadores são considerados inalcançáveis até 2030 mantendo-se as atuais trajetórias.
Mario Herrero, professor da Ashley School of Global Development and the Environment da Cornell University, considera que os resultados evidenciam a necessidade de acelerar o ritmo das políticas e intervenções. “A responsabilização pela transformação dos sistemas alimentares exige progressos mais rápidos — sem isso, os esforços arriscam tornar-se performativos em vez de transformadores. Já não podemos continuar ao ritmo atual”, afirmou.
Apesar do cenário para 2030, a avaliação identifica sinais de evolução positiva. Em sete de 33 indicadores considerados nesta componente da análise, pelo menos um terço dos países encontra-se em trajetória para atingir a meta de 2030. Metade dos indicadores apresenta também uma evolução global considerada favorável.
O estudo calcula igualmente o ritmo de mudança necessário para cumprir os objetivos até 2050, procurando estabelecer uma perspetiva de mais longo prazo para as áreas onde as metas de 2030 se tornaram difíceis de alcançar.
Referências regionais podem ajudar a medir o progresso
Os investigadores defendem que referências regionais ou baseadas em grupos de rendimento podem complementar as metas globais e fornecer objetivos intermédios mais próximos da realidade de cada país.
No caso da acessibilidade económica de uma alimentação saudável, por exemplo, os países africanos encontram-se, em média, 58,7% afastados da referência global. A diferença reduz-se para 32,2% quando a comparação é feita com os 20% de países africanos com melhor desempenho.
“Metas globais ambiciosas são essenciais para estimular a ambição. Mas podem tornar-se uma fonte de inércia se parecerem permanentemente fora de alcance”, afirmou Jessica Fanzo, James Anderson Professor of Food Policy and Climate da Johns Hopkins University School of Advanced International Studies Europe.
Entre as áreas identificadas como prioritárias estão a acessibilidade económica dos alimentos, a insegurança alimentar, a eficácia governamental e as emissões dos sistemas alimentares. Neste último indicador, os investigadores calculam que seriam necessárias reduções anuais superiores a 60%, um ritmo considerado difícil mesmo num horizonte até 2050.
A governação surge também como um dos fatores transversais com maior capacidade de influenciar outros indicadores. Lawrence Haddad, diretor executivo da Global Alliance for Improved Nutrition, destacou que a eficácia dos governos, a responsabilização e a participação da sociedade civil funcionam como elementos facilitadores da transformação de todo o sistema alimentar.
Para José Rosero Moncayo, estatístico-chefe da FAO e diretor da Divisão de Estatística da organização, avaliações abrangentes deste tipo podem apoiar governos e outras entidades na definição de prioridades, investimentos e políticas públicas.
A análise conclui que o cumprimento das metas de 2030 está já comprometido em grande parte dos indicadores, mas considera que muitos dos objetivos poderão continuar ao alcance até 2050 caso o ritmo de transformação seja acelerado e mantido de forma consistente.