Uma equipa de investigadores da Universidade de Surrey, no Reino Unido, desenvolveu um polímero capaz de se decompor em monómeros gasosos quando aquecido a 90 °C e de voltar a formar um material sólido quando arrefece.

A descoberta, publicada na revista científica Macromolecules, abre novas possibilidades para o desenvolvimento de revestimentos removíveis e materiais poliméricos que possam ser recuperados e reutilizados através de processos mais simples.

O estudo, publicado online a 11 de agosto de 2026, apresenta um material com características semelhantes às do polietileno, nomeadamente a flexibilidade, a insolubilidade e a resistência à água. A principal diferença está no seu comportamento térmico: enquanto os plásticos convencionais são concebidos para manter a estabilidade durante longos períodos, o novo polímero pode ser despolimerizado a temperaturas relativamente baixas.

O material desenvolvido é o poli(1,2-ditiolano), também designado poli(dissulfureto de trimetileno), obtido a partir de um monómero cíclico que contém enxofre. Quando aquecido a 90 °C, o polímero decompõe-se nas suas unidades químicas constituintes, que passam ao estado gasoso. Ao arrefecer, estas unidades voltam a reagir entre si, formando espontaneamente o polímero sólido, sem necessidade de uma etapa adicional de processamento químico.

Esta característica distingue-o de outros polímeros quimicamente recicláveis, cuja despolimerização pode exigir temperaturas entre 150 °C e 200 °C, além de operações adicionais para recuperar e transformar os monómeros em novos materiais.

«A maioria dos plásticos é concebida para ser estável, o que é precisamente aquilo que os torna difíceis de reciclar ou remover. Demonstrámos que é possível criar um material com um comportamento muito diferente, capaz de se transformar em vapor a temperaturas relativamente baixas e de se reconstruir naturalmente no mesmo polímero», explicou Peter Roth, professor de Química Orgânica Aplicada e Química de Polímeros na Universidade de Surrey.

O investigador sublinha, contudo, que a descoberta não deve ser interpretada como uma alternativa imediata aos plásticos convencionais. «Não se trata de um substituto para os plásticos convencionais e certamente não é uma solução para o problema global dos resíduos plásticos. Mas introduz um novo conceito que poderá inspirar uma geração inteiramente nova de materiais circulares.»

Revestimentos impermeáveis que podem ser aplicados e removidos com calor

Para demonstrar as possibilidades de utilização do material, os investigadores realizaram três experiências.

Na primeira, utilizaram o vapor do polímero para criar revestimentos impermeáveis sobre superfícies. Durante o arrefecimento, os monómeros voltaram a formar o material sólido, originando uma camada protetora.

Numa segunda experiência, verificaram que o revestimento podia ser removido através de novo aquecimento, provocando a despolimerização e a passagem do material ao estado gasoso.

Por último, demonstraram que o processo permitia purificar um polímero contaminado com um aditivo modelo. Através da sublimação foi possível separar o material polimérico do contaminante e recuperar um sólido limpo.

O trabalho também demonstrou a possibilidade de utilizar o 1,2-ditiolano na produção de copolímeros com outros monómeros, incluindo estireno, acrilatos, acetato de vinilo e metacrilato de metilo.

Estas experiências permitiram introduzir ligações químicas suscetíveis de clivagem nas cadeias poliméricas, uma característica relevante para o desenvolvimento de materiais cuja degradação possa ser controlada.

«A parte mais interessante é termos demonstrado um princípio que anteriormente não estava disponível. Se conseguirmos adaptar esta química, poderemos desenvolver novos materiais mais fáceis de aplicar, remover e reciclar do que muitos dos plásticos atuais», afirmou Touseef Kazmi, investigador de pós-graduação da Universidade de Surrey e primeiro autor do estudo.

Apesar dos resultados, a tecnologia encontra-se ainda numa fase de demonstração laboratorial. A investigação não apresenta dados que permitam confirmar a viabilidade de produção industrial, os custos de processamento ou o desempenho do material em aplicações comerciais.

O interesse da investigação reside sobretudo na possibilidade de desenvolver revestimentos funcionais cuja aplicação e remoção não dependam de processos químicos complexos. A recuperação do material através de ciclos térmicos poderá, futuramente, facilitar determinadas operações de manutenção, separação de materiais e reciclagem.

A passagem desta descoberta para aplicações industriais dependerá, no entanto, do desenvolvimento de formulações adequadas, da avaliação da estabilidade dos materiais durante a utilização e da demonstração da eficiência dos processos em condições reais de produção.