O Parlamento Europeu aprovou, a 21 de outubro, a mobilização de 489 milhões de euros do Fundo de Solidariedade da União Europeia para apoiar a recuperação de Portugal, Espanha, Itália e Malta, na sequência das tempestades e inundações registadas no início de 2026.
Portugal é o principal beneficiário, com uma verba de 261,5 milhões de euros, num período em que várias empresas da indústria de embalagem, particularmente na região Centro, continuam a recuperar dos danos provocados pelo mau tempo.
A proposta foi aprovada por 651 votos a favor, 17 contra e três abstenções. Do montante destinado a Portugal, 65,37 milhões de euros já tinham sido disponibilizados a título de adiantamento. A Espanha receberá 149,1 milhões de euros, a Itália 74,9 milhões e Malta 3,7 milhões. A decisão integra a resposta europeia aos fenómenos meteorológicos extremos registados entre janeiro e fevereiro, incluindo a tempestade Kristin, que atingiu Portugal a 28 de janeiro.
Os apoios destinam-se a financiar operações de emergência e recuperação, nomeadamente a reposição de infraestruturas de energia, água, saneamento, telecomunicações e transportes, bem como trabalhos de limpeza e outras intervenções de proteção das populações.
Embora não se trate de um mecanismo de compensação direta dos prejuízos das empresas, a recuperação destas infraestruturas tem particular importância para as zonas industriais atingidas, onde a interrupção de serviços essenciais condicionou a atividade produtiva durante vários dias.
Indústria de embalagem entre os setores afetados
A região de Leiria, onde se concentra uma parte importante da indústria portuguesa de moldes, plásticos e embalagens, foi uma das mais atingidas pela tempestade Kristin. Os prejuízos incluíram danos em edifícios industriais, equipamentos e sistemas de produção, a par de cortes prolongados de eletricidade e comunicações.
Entre as atividades mais afetadas encontra-se a produção de embalagens de vidro. Na Marinha Grande, as unidades industriais da Vidrala estiveram paradas durante quatro dias, numa operação que habitualmente produz entre oito e dez milhões de garrafas por dia.
As seis unidades de fusão e 23 linhas de produção referidas pela empresa, responsáveis pelo fabrico de cerca de 2.400 toneladas diárias de vidro, entraram posteriormente num processo de recuperação gradual da capacidade produtiva. Para além dos danos nas instalações, a interrupção da atividade teve consequências sobre a produção e as exportações.
A SIE – Sociedade Internacional de Embalagens foi outra das empresas atingidas. Numa atualização divulgada cerca de sete meses após a tempestade, a empresa confirmou que continuava a reconstruir as suas instalações, depois de ter conseguido retomar a atividade. Os trabalhos incluíam a substituição das coberturas provisórias por estruturas definitivas e a reposição dos painéis de energia solar danificados.
A indústria de transformação de plásticos também registou perturbações significativas. Um inquérito realizado pelo CENTIMFE, entre 20 e 24 de fevereiro, junto de 70 empresas da região, incluiu fabricantes de embalagens plásticas, empresas de injeção e produtores de moldes. Entre os participantes, 72% comunicaram interrupções parciais da atividade e 32% indicaram níveis de destruição entre 25% e 50%.
Recuperação das empresas continua a enfrentar dificuldades
A reconstrução das instalações e a reposição dos equipamentos industriais têm sido acompanhadas por dificuldades no acesso aos mecanismos de apoio.
Em março, nove associações empresariais da região de Leiria, entre as quais a Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos (APIP), a CEFAMOL e o CENTIMFE, alertaram para atrasos na atuação das seguradoras, limitações no acesso às linhas de crédito e dificuldades de enquadramento das empresas nos apoios a fundo perdido.
As associações consideraram que os instrumentos financeiros anunciados não estavam a chegar a um número suficiente de empresas, numa altura em que muitas continuavam a suportar os custos de reparação das instalações e de reposição da capacidade produtiva.
Em julho, seis meses após a tempestade Kristin, a NERLEI CCI reconhecia que a recuperação das empresas da região decorria a ritmos diferentes. Os setores dos moldes e plásticos continuavam a enfrentar dificuldades, agravadas pelas condições económicas internacionais e pelos constrangimentos nas cadeias de abastecimento.