Vários estudos de grande impacto que afirmavam ter identificado microplásticos e nanoplásticos em diferentes órgãos do corpo humano (como o cérebro, sangue, testículos, placentas e artérias) estão agora a ser seriamente questionados por cientistas, devido a possíveis erros analíticos, contaminação das amostras e falsos positivos. A informação é avançada pelo The Guardian.
De acordo com uma investigação do jornal britânico, pelo menos sete estudos já foram formalmente contestados nas respetivas publicações científicas, enquanto uma análise recente identificou 18 trabalhos que não consideraram que certos tecidos humanos podem gerar sinais facilmente confundidos com plásticos comuns.
Os especialistas sublinham que, embora a poluição por plástico seja omnipresente no ambiente, nos alimentos, na água e no ar, o impacto real dos microplásticos na saúde humana permanece pouco claro. O problema reside no facto de estas partículas estarem no limite das atuais capacidades de deteção laboratorial, sobretudo em tecidos humanos ricos em gordura, o que aumenta o risco de interpretações erradas.
Um dos estudos mais mediáticos, que sugeria um aumento rápido de microplásticos no cérebro humano ao longo das últimas décadas, foi descrito por críticos como metodologicamente frágil. Os cientistas alertam que componentes lipídicos do cérebro podem gerar falsos sinais de polietileno, colocando em causa as conclusões apresentadas. Outros trabalhos sobre microplásticos em artérias, testículos ou água engarrafada enfrentaram críticas semelhantes.
Segundo os investigadores citados pelo The Guardian, a ausência de normas analíticas específicas para micro e nanoplásticos, aliada à pressão para publicar resultados rapidamente, terá levado a que boas práticas laboratoriais nem sempre fossem seguidas, como o uso de amostras em branco, validações cruzadas e testes de controlo.
Os cientistas alertam ainda que evidência pouco robusta pode ter consequências negativas, desde alarmismo injustificado junto da população até à adoção de políticas públicas mal fundamentadas. Existe também o risco de estes erros serem usados pela indústria dos plásticos para descredibilizar preocupações ambientais legítimas.
Apesar das críticas, os especialistas concordam que a investigação nesta área está a evoluir rapidamente e que é provável que microplásticos estejam presentes no organismo humano, embora a sua quantidade e os seus efeitos continuem por esclarecer. Até existirem dados mais sólidos, recomendam-se medidas simples de precaução, como evitar aquecer alimentos em plástico, reduzir o uso de embalagens plásticas e ventilar os espaços interiores.