A Nespresso decidiu descontinuar as cápsulas de café à base de papel, desenvolvidas em parceria com a fabricante finlandesa de embalagens Huhtamaki.

A decisão foi confirmada pela própria Nespresso, que reconheceu que os comentários dos consumidores permitiram identificar limitações, sobretudo ao nível do prazo de conservação e da experiência global com o produto: «Introduzimos as cápsulas à base de papel com o objetivo de oferecer uma opção adicional, sem comprometer o sabor. No entanto, a nossa experiência reforçou ainda mais a convicção de que o alumínio é a melhor opção para proteger a qualidade do nosso café acabado de torrar até chegar à chávena.»

A gama, denominada Paper-Based Collection, tinha sido apresentada como uma alternativa compostável às tradicionais cápsulas de alumínio.

O projeto começou a ser desenvolvido em 2021, numa parceria entre a Nestlé e a Huhtamaki. As primeiras cápsulas foram apresentadas em França, a 21 de novembro de 2022, seguindo-se testes comerciais em França e na Suíça durante 2023.

A comercialização foi posteriormente alargada a outros países europeus, chegando a um total de 14 mercados. Na Alemanha, por exemplo, a gama só começou a ser vendida na primavera de 2025.

Uma embalagem composta por 82% de fibras de papel

As cápsulas resultaram de um processo de desenvolvimento tecnológico que procurava conciliar a utilização de fibras de celulose com as exigências de conservação do café e de funcionamento das máquinas Nespresso.

A embalagem era constituída por 82% de pasta de papel e incorporava uma película fina de biopolímero compostável, destinada a funcionar como barreira de proteção do conteúdo.

A Huhtamaki utilizou uma tecnologia própria de moldação de fibras de madeira de elevada precisão, capaz de produzir formas complexas com tolerâncias dimensionais inferiores a um milímetro. As fibras eram provenientes de florestas europeias geridas de forma sustentável, com certificação.

As cápsulas obtiveram certificação independente da TÜV Austria para compostagem doméstica, podendo ser encaminhadas para compostagem em condições adequadas.

Na apresentação do projeto, a solução foi enquadrada como uma alternativa às embalagens convencionais, embora a Nespresso tenha esclarecido que não pretendia substituir integralmente as cápsulas de alumínio, mas acrescentar uma opção para os consumidores interessados na compostagem doméstica.

A questão central está nas propriedades de barreira dos materiais. O café torrado é particularmente sensível à exposição ao oxigénio, à humidade e à luz, fatores que podem acelerar a perda de aromas e alterar as suas características.

O alumínio apresenta propriedades de barreira que permitem limitar essa exposição. As embalagens à base de papel, por sua vez, necessitam de camadas complementares para assegurar a proteção do produto.

Esta diferença técnica não significa que as embalagens à base de fibras sejam inadequadas para a conservação alimentar, mas evidencia as exigências específicas da embalagem de café em cápsulas.

Avaliação ambiental revela resultados semelhantes

A decisão levanta também questões sobre o impacto ambiental das duas soluções. De acordo com a Nespresso, a avaliação do ciclo de vida realizada durante o desenvolvimento das cápsulas compostáveis concluiu que as alternativas em papel e alumínio apresentavam resultados ambientais globais comparáveis.

Os valores divulgados por uma porta-voz da Nestlé, citada pela imprensa suíça e alemã, apontam para uma pegada estimada de 79 gramas de CO₂ equivalente por chávena de expresso preparada com uma cápsula de papel e de 81 gramas com uma cápsula de alumínio.

A diferença de dois gramas representa cerca de 2,5% do valor atribuído à opção em alumínio. Os resultados, contudo, não permitem concluir que as duas soluções tenham impactos idênticos em todas as categorias ambientais.

A avaliação apresentada pela empresa refere-se ao ciclo de vida do produto, sendo o resultado dependente de fatores como as matérias-primas, o processo de produção, a utilização e o destino dos resíduos. A documentação metodológica completa não foi disponibilizada nas informações públicas consultadas, pelo que não é possível avaliar de forma independente todos os pressupostos utilizados.

Reciclagem de alumínio volta a ser prioridade

Com o abandono da gama compostável, a Nespresso pretende concentrar os seus esforços no desenvolvimento dos sistemas de recolha e reciclagem das cápsulas de alumínio.

A marca defende que o material oferece vantagens na conservação do café e pode ser reciclado repetidamente, embora a recuperação efetiva dependa da existência de infraestruturas adequadas e da participação dos consumidores.

Na Suíça, a empresa indicou uma taxa de reciclagem de 73% para as cápsulas de consumo doméstico. Em França, cerca de 80% da população já teria acesso à recolha de cápsulas através dos sistemas convencionais de gestão de resíduos, de acordo com os dados comunicados pela Nespresso em setembro de 2026.

Em Portugal, a Nespresso dispõe de mecanismos próprios de recolha de cápsulas usadas, incluindo pontos de entrega e serviços associados à devolução das embalagens para reciclagem.